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A Encruzilhada do Nosso Tempo

“A encruzilhada revela muitos caminhos, mas o caminho correto é aquele que protege a vida, honra a criação e caminha na direção da paz, do amor e do respeito.”


By: Fabrício Barbosa

Data: 02/01/2026


A encruzilhada sempre foi mais do que um simples cruzamento de estradas. Desde os tempos mais antigos, ela aparece como um símbolo poderoso da condição humana: o momento em que somos chamados a escolher, a decidir, a assumir responsabilidades e a compreender que cada passo dado inaugura um novo ciclo.

Espiritualmente, a encruzilhada representa um ponto de poder, transição e passagem. É o lugar onde passado e futuro se encontram, onde aquilo que fomos confronta aquilo que podemos vir a ser. Não por acaso, ela exige silêncio interior, reflexão e coragem. Toda encruzilhada carrega uma pergunta implícita: qual caminho você escolhe seguir?

A encruzilhada como ponto de encontro entre mundos

Nas tradições espirituais afro-brasileiras, especialmente na Umbanda e no Candomblé, a encruzilhada é compreendida como um espaço sagrado, onde diferentes planos da existência se tocam. É ali que o mundo físico dialoga com o mundo espiritual, e onde as energias se cruzam, se reorganizam e se manifestam.

Nesse espaço simbólico e ritualístico, a encruzilhada é regida por Exu, o Senhor dos Caminhos, mensageiro entre os mundos, guardião das passagens e das escolhas. Exu não é o bem nem o mal: ele é o movimento, a comunicação, a possibilidade. Ele ensina que não existe caminho sem consequência, nem escolha sem aprendizado.

Ao lado de Exu, as Pombagiras também ocupam lugar central nas encruzilhadas, especialmente nos pontos de decisão ligados às emoções, aos afetos, à autonomia e ao rompimento de padrões. Elas simbolizam a força do desapego, da transformação e da reconstrução da própria história.

Escolha, transformação e livre-arbítrio

A encruzilhada é, acima de tudo, o arquétipo da escolha. Ela nos lembra que o livre-arbítrio não é apenas o direito de escolher, mas também a disposição de assumir os efeitos da escolha feita. Cada caminho aberto implica outros caminhos fechados; cada decisão carrega perdas e ganhos.

Filosoficamente, a encruzilhada nos confronta com uma verdade essencial: não escolher também é uma escolha. Permanecer parado, hesitar indefinidamente ou tentar agradar todos os caminhos é, muitas vezes, a forma mais sutil de se perder.

É nesse ponto que a encruzilhada se torna um espaço de transformação. Para seguir adiante, algo precisa ficar para trás. O velho ciclo se encerra para que o novo possa começar.

Dualidade, transmutação e responsabilidade

Muitas vezes, a encruzilhada é associada à ideia de dualidade — bem e mal, luz e sombra. No entanto, nas tradições afro-brasileiras, ela não representa um campo de batalha moral, mas um lugar de transmutação.

É na encruzilhada que se pode transformar energias densas em aprendizado, bloqueios em movimento, medo em consciência. Os rituais, despachos e oferendas realizados nesses locais não são atos de submissão, mas de responsabilidade espiritual, reconhecimento das forças da vida e pedido de equilíbrio.

Em toda encruzilhada surgem caminhos que não pedem escolha, mas renúncia. Há estradas marcadas pela guerra, pela violência e pela truculência, que até se mostram à vista, mas não nos devem chamar atenção. O caminho verdadeiro é o que a maioria de nós decidiu seguir: é aquele que protege a terra, defende a vida, reconhece a dignidade de cada pessoa e celebra a diversidade como expressão do sagrado. Caminhar por ele é viver os preceitos cristãos no cotidiano — amar, cuidar, perdoar e construir a paz. Algumas encruzilhadas não existem para dividir nossos passos, mas para confirmar o que já sabemos, de onde estamos vindo e para onde devemos seguir nossa caminhada.

A encruzilhada como início de novos ciclos

No fim das contas, toda encruzilhada é um portal. Um ponto onde o ser humano se encontra com o divino, não para receber respostas prontas, mas para aprender a perguntar melhor. Ela marca o fim de um ciclo e o nascimento de outro, sempre sob a regência do movimento, da palavra e da consciência.

A encruzilhada nos ensina que viver é caminhar, escolher e transformar-se. E que, mesmo quando os caminhos parecem confusos, há sempre um convite silencioso à escuta interior. Exu abre os caminhos — mas somos nós que decidimos por onde andar.


 
 
 

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