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Comunicar é hábito.



By: Fabrício Ramires Barboa / redação Brajeiradas

Data 24/06/2026

 

A comunicação é uma habilidade natural do ser humano e, essencialmente, o processo de compartilhar significados. Mais do que simplesmente falar, emitir um som ou transmitir dados, comunicar significa garantir que o outro compreendeu a mensagem enviada. Trata-se de uma faculdade inerente à evolução da nossa espécie. Estima-se que a humanidade desenvolveu formas primitivas de comunicação há mais de 170.000 anos, evoluiu para a fala articulada há 80.000 anos e consolidou a escrita há cerca de 8.000 anos. O fato de o primeiro e-mail ter sido enviado na década de 1970 nos mostra que estamos apenas adaptando nossa linguagem a novos meios, mas o ato de se comunicar é um aprendizado milenar.

Essa linha do tempo nos revela que a comunicação não é um comportamento meramente treinado ou um processo passivo de recepção, mas sim uma necessidade vital e um traço biológico e social que moldou a civilização. Assim, ela se estabelece como um processo dinâmico, cíclico e composto por elementos fundamentais que operam em constante interdependência:

  • Remetente (Emissor): Aquele que idealiza, formula, codifica e envia a mensagem a partir de sua bagagem e intenção.

  • Canal: O meio físico, biológico ou virtual por onde a mensagem viaja e se materializa (a voz, o ar, o rádio, a internet, o papel).

  • Receptor: Aquele que acolhe, decodifica, interpreta e dá sentido ao conteúdo recebido.

  • Feedback (Retorno): A resposta do receptor que retroalimenta o ciclo, validando se a mensagem foi de fato compreendida ou se necessita de ajustes.

Para que essa engrenagem seja eficaz, o grande desafio é minimizar os "ruídos" — as interferências físicas, ideológicas ou semânticas que distorcem o sinal. Por isso, faz-se mister sempre levar em consideração o contexto ambiental, social e cultural de quem está recebendo a informação. Sem empatia contextual, a mensagem se perde.


O Loop do Hábito e a Hegemonia da Grande Mídia

Contudo, quando transpomos essa dinâmica para a estrutura social moderna, percebemos que os canais de comunicação não são neutros. Sob a ótica da psicologia comportamental, a sociedade frequentemente opera em um fluxo automático de consumo de informação, funcionando no que Charles Duhigg, em O Poder do Hábito, conceitua como o "Loop do Hábito": uma estrutura composta por uma deixa (um estímulo), uma rotina (o comportamento executado) e uma recompensa (o ganho neuroquímico ou social).

No cenário mediático tradicional, os grandes conglomerados de comunicação moldaram um hábito social passivo:

  Ao centralizar o poder de emissão, a grande mídia atua como um filtro hegemônico. Esse "loop" automatizado distorce ou silencia o modo de vida, as batalhas e a riqueza cultural das comunidades locais e tradicionais. Padronizam-se narrativas que atendem aos interesses das grandes potências econômicas e políticas, marginalizando os modos de existência que não se adequam à lógica do mercado. O receptor, habituado a esse ciclo, consome a sub-representação de si mesmo sem questionar.


A Comunicação Popular como Interrupção do Hábito (A Força da Mudança)


É nesse cenário que a comunicação popular surge não apenas como uma alternativa, mas como uma necessidade histórica e uma ferramenta de resistência política e cultural. Para mudar um hábito arraigado, Duhigg explica que não se deve tentar extingui-lo, mas sim manter a deixa, oferecer uma nova rotina e entregar uma nova recompensa.

A comunicação popular faz exatamente isso: ela aproveita a necessidade social de informação (deixa), propõe canais comunitários e independentes de difusão (nova rotina) e entrega como resultado a emancipação e o reconhecimento real da própria identidade (nova recompensa). Ela se sustenta em três pilares principais:

  • Protagonismo: Devolver a palavra ao sujeito coletivo. Permite que as próprias pessoas e comunidades contem suas histórias na primeira pessoa, eliminando intermediários externos que frequentemente alteram, romantizam ou criminalizam seus discursos.

  • Romper o Silêncio (Mudar a Rotina): Trazer para a esfera pública o invisibilizado. Dar luz, voz e registro a práticas essenciais de subsistência e identidade — como a agroecologia, a medicina tradicional e a cultura comunitária — que são sistematicamente ignoradas pelos meios de comunicação de massa.

  • Ferramenta de Ação: Compreender que a comunicação é uma extensão da batalha territorial. Disputar a narrativa pública e ocupar os espaços de debate é, fundamentalmente, uma forma de salvaguardar a soberania dos saberes populares, proteger o planeta e garantir a permanência das futuras gerações.


Novas Ferramentas, Novos Hábitos


Atualmente, a popularização das ferramentas digitais está proporcionando uma transformação profunda e impactante na visibilidade e na autonomia dessas narrativas comunitárias. A tecnologia encurtou as distâncias e desmistificou o acesso à produção técnica, facilitando a criação de novos hábitos de comunicação de base.

Nesse panorama, a fotografia com o celular e a produção audiovisual mobile tornaram-se as principais armas de registro e denúncia. O bolso de cada jovem ou liderança comunitária abriga hoje um potencial estúdio de captação e difusão. Capturar uma boa imagem na comunidade — que valorize o trabalho, a beleza do cotidiano e a força da participação popular — vai muito além da estética: é um ato de documentação histórica e de afirmação de identidade popular. É a criação de um novo "hábito angular", aquele pequeno comportamento que, uma vez alterado, desencadeia uma série de outras transformações sociais positivas na comunidade.

A comunicação popular cumpre, portanto, o papel revolucionário de democratizar a informação e redistribuir o poder da palavra. Quando as lideranças locais e os atores sociais se apropriam conscientemente dessas técnicas e ferramentas, elas quebram o automatismo da recepção passiva e rompem a condição histórica de meras espectadoras da história alheia. Elas passam a construir, assinar e ditar o seu próprio destino no debate público, mostrando ao mundo que suas vidas não esperam pelo aval da grande mídia para existir e resistir.


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