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Entre Muros e Janelas: O que The Wall ainda nos ensina sobre educação

"We don't need no education..."


 

By: Fabrício Barbosa, redação brajeiradas

Data: 21/07/2026

 

Poucas frases da história da música foram tão mal compreendidas quanto o refrão de Another Brick in the Wall (Part 2), do Pink Floyd. À primeira vista, parece um grito contra a escola. Mas basta ouvir a canção com atenção — e, principalmente, assistir ao icônico videoclipe — para perceber que a crítica não é dirigida ao conhecimento, mas a um modelo de educação que sufoca a individualidade e transforma estudantes em peças de uma engrenagem.

Lançada em 1979, a música integra o álbum The Wall, uma obra que discute isolamento, autoritarismo e alienação. Na sequência do filme, crianças marcham em fila, usando máscaras idênticas, até serem despejadas em um gigantesco moedor de carne. A metáfora é poderosa: quando a educação abandona sua missão de formar pessoas e passa a fabricar comportamentos, cada estudante se torna "mais um tijolo no muro".

Quase cinquenta anos depois, essa crítica permanece surpreendentemente atual.


A escola que ensina ou a escola que enquadra?

A educação sempre viveu uma tensão permanente entre dois objetivos. De um lado, transmitir conhecimentos, valores e regras de convivência. De outro, desenvolver autonomia, criatividade e pensamento crítico.

O problema surge quando o equilíbrio se rompe.

Toda instituição precisa de organização. Sem disciplina, dificilmente existe aprendizado. Entretanto, disciplina não pode ser confundida com submissão, assim como respeito não significa silêncio absoluto.

Educar nunca foi apenas ensinar a obedecer.

Educar é ensinar a compreender.


O debate sobre as escolas cívico-militares


Nos últimos anos, o Brasil passou a discutir intensamente a expansão das escolas cívico-militares. Seus defensores apontam resultados positivos relacionados à organização, redução de conflitos, valorização da disciplina e melhoria do ambiente escolar.

Por outro lado, pesquisadores, educadores e entidades ligadas à educação levantam questionamentos importantes. Entre eles, destacam-se o risco de restringir espaços de participação, reduzir práticas pedagógicas mais dialógicas e privilegiar uma cultura institucional fortemente baseada na hierarquia.

Não se trata de um debate simples, nem de uma questão que comporte respostas fáceis. A pergunta talvez seja outra:

Qual é a finalidade da escola? Formar pessoas obedientes? Ou formar cidadãos capazes de pensar criticamente sobre a realidade em que vivem?

Paulo Freire e o direito de perguntar


O educador brasileiro Paulo Freire defendia que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar condições para que ele seja produzido.

A escola democrática não elimina a autoridade do professor. Pelo contrário. Ela fortalece essa autoridade pelo diálogo, pela escuta e pela construção coletiva do conhecimento.

Perguntar não representa falta de respeito.

Questionar não significa indisciplina.

Pensar diferente não é ameaça.

É justamente o exercício da cidadania.


Muros ou janelas?


Talvez o maior legado de The Wall seja lembrar que educação não deveria erguer muros entre quem ensina e quem aprende.

Ela deveria abrir janelas.

Janelas para a ciência.

Para a arte.

Para a filosofia.

Para o contraditório.

Para a convivência com a diversidade.

A escola existe para ampliar horizontes, não para estreitá-los.

Uma sociedade democrática precisa de cidadãos capazes de discordar sem odiar, argumentar sem agredir e pensar sem medo.

Isso exige disciplina.

Mas também exige curiosidade.

Exige responsabilidade.

Mas também liberdade.

Porque a educação que transforma não é aquela que fabrica indivíduos iguais.

É aquela que reconhece que cada estudante carrega uma história, um talento e uma maneira única de compreender o mundo.

Como nos lembra Pink Floyd, o maior risco da educação não é ensinar demais. É ensinar tão pouco sobre liberdade que acabemos aceitando, sem perceber, ser apenas mais um tijolo na parede.

Nota editorial: Este artigo utiliza Another Brick in the Wall, do Pink Floyd, como referência cultural para refletir sobre diferentes concepções de educação. A obra não foi composta especificamente em resposta às escolas cívico-militares, mas sua crítica ao autoritarismo e à desumanização do ensino inspira um debate contemporâneo sobre modelos educacionais e a formação de cidadãos críticos.



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