O Mês de Junho e as Festas Juninas:Período de intenso bombardeio a cultura e a identidade Camponesas!
- Brajeiradas criação de cont.

- 8 de jul. de 2024
- 3 min de leitura
Atualizado: 30 de dez. de 2024
By: Valter I. da Silva
Todos os meses de junho, a cada ano, se repetem as tradicionais festas Juninas. Estas surgiram como um momento de comemorar a colheita, apresentar a riqueza da culinária e da cultura camponesa, recuperar costumes, festejar o mês do santo casamenteiro, etc. Em suma, as festas juninas são a expressão da cultura e da identidade camponesa.
Camponeses são aquelas pessoas que tendo acesso aos recursos naturais, seja a posse e/ou o uso da terra, água, florestas, biodiversidade, etc, buscam a garantia continuada da reprodução social da família, seja ela a família singular seja a ampliada. O trabalho está centrado na força da família, embora possa contratar serviços temporário e/ou prestar serviços para terceiros. A reprodução social da unidade de produção camponesa não é movida pelo lucro, mas pela possibilidade crescente de melhoria das condições de vida e de trabalho da família. Essas famílias, no decorrer de suas vidas e nas interações sociais que estabelecem, desenvolvem hábitos de consumo e de trabalho e formas diferenciadas de apropriação da natureza. A estas formas podemos chamar de Sistemas Camponeses de Produção. Esse sistema tradicional de produção camponês, é considerado “uma sábia combinação entre diferentes técnicas”, foi se aperfeiçoando ao longo do tempo, até atingir um equilíbrio numa relação específica entre um grande número de atividades agrícolas e de criação animal.
“Vivendo na terra e do que ela produz, plantando e colhendo o alimento que vai para a sua mesa e para a do príncipe, do tecelão e do soldado, o camponês é o trabalhador que se envolve mais diretamente com os segredos da Natureza. A céu aberto é um observador dos astros e dos elementos. Sabe de onde sopra o vento, quando virá a primeira chuva, que insetos podem ameaçar seus cultivos, quantas horas deverão ser dedicadas a determinada tarefa. Seu conhecimento do tempo e do espaço é profundo e já existia antes daquilo que convencionamos chamar de ciência.” ( Margarida Maria Moura, 1988 )
Desta forma, as famílias camponesas produzem alimentos saudáveis para seu auto consumo e para o alimento do País, de forma diversificada, com respeito a natureza, etc. Mantém uma mesa farta com uma rica diversidade de alimentos como: feijão, arroz, carne, leite, ovos, verduras, legumes, frutas, batata, mandioca, milho verde, lingüiça, queijo... E é isso que a festa da colheita vem comemorar.
Mas ao observarmos com um olhar um pouco mais atento para estas festividades, podemos perceber uma mudança drástica no seu caráter.
Enquanto no nordeste Brasileiro os concursos de danças das quadrilhas vão sendo elitizados, excluindo os camponeses, em nossa região as pessoas vestem roupas remendadas, como aquelas que as famílias camponesas usam no trabalho, para ir a festa;
Usam chapéu desfiado e pintam os dentes de preto para demonstrar que camponês não tem dente;
Os casamentos encenados sempre são forçados, o noivo casa na mira de uma espingarda, o Padre esta bêbado e a noiva grávida, passando uma imagem que alguém pensou sobre a família camponesa;
Ao analisarmos as musicas, percebemos que estas trazem letras como: “Num Rancho Fundo bem pra lá do fim do mundo, onde a dor e a saudade contam coisas da cidade”, ou que “as mocinhas da cidade são bonitas e dançam bem”, ou que a Sinhá Moça é ”tão meiga que nem parece nascida neste lugar”!
Assim, podemos perceber que a cultura e a identidade camponesas agonizam, cercadas por um forte bombardeio ideológico através da musica, das festas juninas, da figura do Jeca Tatu do Monteiro Lobato, das políticas públicas que incentivam as monoculturas e rompem com os sistemas camponeses de produção, pela nucleação de escolas que afasta a juventude do campo e consequentemente da sua cultura. Numa tentativa de mostrar que o campo é feio, atrasado e triste, e que a cidade é bonita, moderna e alegre. Vão convencendo nossa juventude, a ir embora pras cidades, ampliar o mar de desempregados, enquanto no campo, uma agricultura sem gente, concentradora de terra e de riqueza, destruidora da natureza vai se implantada.
E nos vamos esquecendo a beleza e a fartura da vida no campo, do canto dos pássaros, das frutas colhidas direto do pé, dos varais de lingüiça, das carnes de lata, da água fresca, dos gramados, da liberdade para criar nossos filhos, etc. Esquecemos também que com as tecnologias hoje existentes, podemos recuperar tudo de bom da cultura camponesa diminuindo imensamente as dificuldades vividas por nossos antepassados.
Me resta dizer que se em algum trecho do texto, usei palavras fortes e duras, não foi com o intuito de agredir ninguém, mas na tentativa de ser claro e levar o amigo leitor a refletir sobre o que esta acontecendo.
Eu tenho orgulho de ser camponês, acredito que o campo é o melhor lugar pra se viver e não posso deixar de expressar minha revolta frente a este bombardeio ideológico que a cultura camponesa vem sofrendo!
Este texto foi escrito em 7 de junho de 2008 e continua atualissimo.








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