top of page

O projeto Festival Cultural e Feira Camponesa lança “A Mão que Planta é a Mão que Toca: Canto do Acauã e o Eco da Terra em Brasília” com o patrocínio da Petrobras

há 38 minutos
3 min de leitura

By: Valter Israel – Redação do Brajeiradas

Data: 22/10/26



A Utopia como Bússola e Alimento

Entre os dias 11 e 14 de maio de 2026, o Centro de Eventos Athos Bulcão, na Universidade Federal de Brasília (UnB), tornou-se o epicentro vivo da agrobiodiversidade e da cultura popular do Brasil. Ali, onde o cheiro da rapadura, das geleias, das pomadas fitoterápicas e o brilho guardado das sementes crioulas preencheram os corredores, provou-se mais uma vez que o alimento saudável e a arte engajada brotam da mesma raiz.

Como nos lembra a célebre reflexão de Fernando Birri e Eduardo Galeano resgatada nos corredores do evento, a utopia serve exatamente para isso: para nos fazer caminhar. E a caminhada camponesa até a capital federal traduziu essa busca em passos concretos, transformando a feira e o festival em um grande mutirão de saberes, sabores e acordes.

Com o patrocínio da Petrobras, via Lei Rouanet, o projeto Festival Cultural e Feira Camponesa foi realizado por meio de uma parceria da Associação dos Pequenos Agricultores (ANAC) e o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA).


Do Alto Sertão ao Cenário Nacional: A Origem no Grupo Raízes Nordestinas


No coração da programação cultural, entre dezenas de expressões vindas de todos os cantos do país, a força do forró autêntico e engajado ganhou corpo com o Grupo Canto do Acaua.

A história do grupo começa muito antes dos grandes palcos, nas comunidades de Maranduba e Queimadas, no Alto Sertão Sergipano. Foi ali que o jovem Jean Marques, aos 9 anos de idade, teve seu primeiro contato com a arte transformadora através do Grupo de Teatro Popular Raízes Nordestinas.


Do Alto Sertão Sergipano para o Brasil: Formação e Raízes


Maranduba e Queimadas: Infância e vivência comunitária no sertão.

Teatro Popular Raízes Nordestinas: Primeiro contato de Jean Marques com a arte.

Trabalho na Roça e na Construção Civil: A aquisição da primeira sanfona com suor próprio.

Encontro na UFS: Conexão entre a sanfona sertaneja e a formação acadêmica.

Com o apoio da família e o trabalho duro — dividindo-se entre a roça e o trabalho como pedreiro —, Jean reuniu os recursos para comprar sua primeira sanfona. Mais do que um instrumento, a sanfona disponibilizada e incentivada no âmbito da formação popular tornou-se uma ferramenta de libertação e de diálogo social.


A Identidade do Acauã: Resistência, Coletividade e Princípios


Ao ingressar no curso de Música da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Jean Marques encontrou o violonista Guilherme Santos, vindo da música clássica e do Conservatório de Sergipe. A fusão entre a vivência do sertão e a técnica apurada logo expandiu-se com a chegada do zabumbeiro Cleilton Aragão (também egresso do Raízes Nordestinas), do vocalista e triangulista baiano Alessandro Valverde e do flautista Jonatas Aragão.

A identidade do Canto do Acauã se consolida através de pilares fundamentais que expressam sua postura política e artística:

  • Simbolismo do Nome: Ao contrário de outras aves que migram durante as secas do sertão, o Acauã permanece no território. O grupo ressignifica essa figura, transformando o Acauã em um símbolo de resiliência, permanência e resistência do povo camponês.

  • Concepção Organizacional: Eles se afirmam rigorosamente como um grupo e não como uma simples "banda". Essa escolha é política e contrapõe-se à mercantilização e à precarização da arte, estabelecendo uma criação compartilhada e com responsabilidade coletiva.

  • Proposta Sonora: O repertório é pautado pelo forró pé-de-serra e pela música popular engajada, recusando a lógica comercial e propondo uma sonoridade que dialoga diretamente com as lutas, dores e esperanças do campo.

  • Ação Educativa: A atuação do grupo vai além dos palcos, desdobrando-se em processos de formação popular, oficinas de música, escolinhas de formação e constante articulação com os movimentos sociais.


Da Trincada de São João ao Futuro da Música Popular


A rotina desses jovens artistas reflete a entrega total à cultura de matriz popular. No circuito nordestino, especialmente durante o período junino em Sergipe e na Bahia, o Canto do Acauã enfrenta maratonas exaustivas de mais de 20 apresentações mensais, mantendo viva a chama da música tradicional e a dignidade do trabalho artístico.

Ao ocupar o palco do Centro de Eventos Athos Bulcão na edição do festival registrada para a coletânea Camponeses em Acordes, o Canto do Acauã reafirmou que a arte camponesa não pede licença: ela afirma sua identidade, projeta a gravação de seus registros autorais audiovisuais e finca raízes definitivas no panorama da MPB contemporânea.

"Ter a possibilidade de fazer arte, teatro e música no campo proporciona o direito de sonhar. E quando se tem o direito de sonhar, também se conquista o direito de transformar." — Jean Marques

O documentário em curta-metragem já está disponível para o público. Você pode assistir às versões com ou sem acessibilidade nos canais do Ponto de Cultura Brajeiradas:

do MPA:

e da ANAC:

 


Comentários


bottom of page