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O Teatro do Espelho: Por que você nunca será quem pensa que é?


By: Fabrício Barbosa

Data: 23/02/2026


  Vivemos em uma era de obsessão pela "autenticidade". O mantra moderno é o cansativo "seja você mesmo", como se houvesse um manual de instruções escondido em algum lugar da nossa alma. Mas o Pimentorium veio hoje para te dar uma notícia indigesta, cortesia de Jacques Lacan: você não faz a menor ideia de quem você é.

O que você chama de "Eu" é, na verdade, uma colagem malfeita de expectativas alheias, fragmentos de desejos de terceiros e alguns filtros de Instagram para dar liga.

Para entender esse nó cego da identidade, precisamos encarar o que Lacan chamou de Estádio do Espelho. Imagine um bebê desengonçado que, ao se ver no espelho, acredita piamente que é aquela imagem inteira, coordenada e bela. Ali nasce o nosso primeiro grande equívoco: a gente se apaixona por um reflexo que não somos nós. Passamos o resto da vida tentando caber nessa moldura estática, fingindo que somos o protagonista de uma série de sucesso, quando, nos bastidores, somos apenas um amontoado de impulsos tentando não passar vergonha no crédito. Sua autoimagem, portanto, é a primeira grande fake news que você consome.

Essa ficção se complica quando jogamos o outro na equação. Lacan foi cirúrgico: "O desejo do homem é o desejo do Outro".

Isso significa que você raramente quer aquele cargo, aquele corpo ou aquele vinho porque eles são inerentemente bons para você; você os quer porque acredita que os outros os desejam. Como os outros te veem? Eles não te veem. Eles enxergam o que você representa na falta deles. Você é apenas um suporte para as projeções e frustrações alheias. Se você vive para corresponder ao que o olhar do outro espera, você deixa de ser uma pessoa e vira um objeto de decoração na vida alheia — um troféu ou um bode expiatório, dependendo do dia.

Mas e o tal "eu de verdade"? Se tirarmos a sua profissão, suas roupas, suas opiniões políticas e seu status social, o que sobra? Para a psicanálise, sobra o Real — e o Real é incômodo. O seu verdadeiro "eu" não habita o que você posta às dez da manhã sob luz favorável; ele habita o seu ato falho, aquela mania que você odeia, mas não larga, e aquilo que você faz quando tem a certeza absoluta de que ninguém está olhando. Você é onde você não pensa. O seu "eu" habita o vácuo entre quem você finge ser e quem o mundo exige que você apareça.

Tentar harmonizar essas três versões — a máscara que você criou, a imagem que os outros projetam e o vazio do que você é — é a receita certa para uma estafa mental. A liberdade não está em "se encontrar" em uma jornada espiritual de fim de semana, mas em aceitar que você é um estranho para si mesmo. A verdade é libertadora: o seu "Eu" é uma construção alienada.

Da próxima vez que se olhar no espelho, em vez de buscar a perfeição ou a resposta para o sentido da vida, tente rir da sua própria máscara. Afinal, como diria o mestre: "Eu sou onde não penso, e penso onde não sou". O resto é apenas barulho de quem ainda acredita piamente na própria biografia do LinkedIn.

 


2 comentários


Ines
27 de fev.

Caminhos de transformação!

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Convidado:
28 de fev.
Respondendo a

Iniciativas impactantes como um lugar de expressão são extremamente importantes.

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