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Do Território ao Sentir: As Benzedeiras e a Linha Invisível que Sustenta a Vida.

1 de jul.
3 min de leitura

By: Fabrício Ramires Barbosa / redação brajeiradas

data: 29/06/2026

 

Olhar para a terra nunca foi apenas uma questão de geografia ou de demarcação espacial. Para quem compreende as dinâmicas da agrobiodiversidade e a pulsação das comunidades tradicionais, o território é, antes de tudo, um organismo vivo feito de memória, sementes e ancestralidade. É nesse entrelaço entre a natureza e a cultura que habitam as benzedeiras — figuras que a pressa da modernidade líquida muitas vezes tenta empurrar para o esquecimento, mas que permanecem como verdadeiras guardiãs da identidade e do cuidado comunitário.

Recentemente, o e-book Benzedeiras de Foz do Jordão: Raízes da Nossa Terra, de autoria da historiadora e educadora Marcia Denise de Lima Dias (ela própria herdeira dessa linhagem de mulheres de reza), trouxe à luz um catálogo vivo de 35 plantas medicinais cultivadas e resguardadas no Centro-Sul do Paraná. Contudo, ao folhear as páginas que registram os saberes de mestras como Dona Bina e Neuzélia Dias, percebe-se que o registro ali contido vai muito além da botânica puramente científica. O que se revela é uma sofisticada e sensível ecologia do afeto e da saúde integral.

No imaginário popular apressado, o "benzer" é visto como um rito estático, quase folclórico. Mas se expandirmos o conceito, o que é a benzedura senão uma das formas mais antigas e eficazes de acolhimento e medicina comunitária?

Como bem pontua Dona Bina em um dos relatos do livro, "erva não se usa com pressa". Antes de qualquer manipulação de folhas ou cascas, há um elemento anterior e essencial: a conversa. "Antes do chá, vem a conversa. Antes da simpatia, vem o coração". Nesse sentido, as benzedeiras operam uma clínica da palavra. Elas escutam o vento, o silêncio e o pedido de quem chega desamparado. Num mundo saturado por diagnósticos rápidos e medicalização excessiva, a benzedeira oferece o tempo, a presença e a validação do sofrimento alheio.

A planta, para essas mulheres e homens de saber, não é um mero insumo farmacológico isolado; ela é, nas palavras da obra, "palavra, escuta e pensamento vivo". Há uma compreensão profunda de que o corpo físico e o corpo social/espiritual estão indissociáveis. Trata-se de uma soberania de saúde baseada no que a própria terra oferece nos quintais e fundos de casa.

A sofisticação desse saber tradicional se expressa na maneira como as benzedeiras categorizam a ação das plantas, mapeando não apenas os sintomas físicos, mas os estados emocionais da comunidade:


A Maçanilha (Camomila): Descrita como a erva que "não gosta de barulho nem de pressa". Ela é usada quando a cabeça está cheia demais ou quando "o cansaço é mais do coração do que do corpo". O banho e o chá servem para desacelerar o pensamento e trazer o sossego de volta.
O Gervão: Atua no excesso. Quando o pensamento está confuso e o corpo pesado, o gervão surge para "limpar devagar, mas limpar fundo".
O Guiné: Uma planta de "força antiga", associada à proteção e ao fortalecimento, capaz de "limpar o que pesa no corpo e no espírito".
A Malva: Definida lindamente como a "erva de carinho", aquela que não machuca, feita para suavizar tanto o que está inflamado na carne quanto o que está "inflamado no sentir".
O Cipó-Cabeludo: A planta que "cresce agarrada, mas ensina a soltar", desatando as dores escondidas e empurrando para fora o que nos adoece internamente.

Notem a profundidade dessas metáforas: suavizar o sentir, ensinar a soltar, limpar o excesso. Isso não é crendice; é a estruturação de um sistema de cuidado que entende o ser humano em sua totalidade, integrando o homem à agrobiodiversidade que o cerca.

Falar sobre as benzedeiras é fazer um chamado à nossa própria memória. Essa tradição sobreviveu porque foi transmitida no sussurro das cozinhas, no cuidado de mães, avós e bisavós, resistindo ao tempo e à desvalorização histórica dos saberes populares e das culturas periféricas e rurais.

Quando defendemos a agroecologia, a preservação das sementes crioulas e a autonomia dos povos sobre seus territórios, estamos defendendo também o direito dessas comunidades de manterem acesos os seus faróis de cura. As benzedeiras nos lembram de onde viemos e apontam caminhos de resiliência comunitária para o futuro.

Preservar esse conhecimento, como fez o projeto em Foz do Jordão no interior do Paraná, é garantir que as novas gerações saibam que a farmácia viva do quintal é um patrimônio cultural imaterial inestimável. Curar o corpo, no fim das contas, sempre foi um ato coletivo, político e profundamente afetuoso. Que saibamos, portanto, silenciar a nossa pressa para ouvir o que a terra — e os mais velhos — ainda têm a nos dizer.


Acesse o e-boock do projeto em :






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