Milícias e polícia no Brasil: quando a força do Estado serve a interesses políticos e econômicos
By: Fabrício Barbosa - Redação Brajeiradas
Data: 29/01/2026 – quatro dias após a vitória de Lula nas urnas
A fronteira entre segurança pública e controle social fica perigosa quando a força armada deixa de proteger direitos e passa a organizar territórios, negócios e comportamentos. No Brasil, essa fronteira aparece de forma mais visível nas milícias, mas também surge, de modo menos assumido, em práticas de setores das forças policiais estaduais.
Milícias não são apenas “gr upos armados”. Elas funcionam como sistemas de poder. Controlam bairros, cobram taxas, regulam serviços, intimidam moradores, influenciam eleições e decidem quem pode circular, vender, construir ou protestar. O problema se agrava quando parte do Estado combate esse fenômeno de um lado, mas reproduz sua lógica de outro: ocupação violenta de territórios pobres, seletividade contra certos grupos, proteção de interesses privados e uso político da repressão.
Discutir essa relação não significa afirmar que toda pessoa policial seja miliciana, nem ignorar riscos reais enfrentados por profissionais da segurança. Significa encarar uma pergunta central: qual é a função da polícia numa democracia, proteger a sociedade ou administrar o medo em nome de determinados poderes?

Como as milícias operam nos territórios
As milícias se consolidaram em diferentes regiões, especialmente no Rio de Janeiro, a partir de uma promessa simples: oferecer “proteção” onde o Estado falha. Na prática, essa proteção costuma virar coerção. O morador paga para não ser ameaçado pelo próprio grupo que diz protegê-lo.
Esse modelo combina três elementos.
O primeiro é o controle armado. A presença de homens armados, muitas vezes com experiência ou vínculos com forças de segurança, impõe silêncio. A violência não precisa acontecer todos os dias. Basta que todos saibam que ela pode acontecer.
O segundo é a economia da extorsão. Em áreas dominadas por milícias, serviços básicos podem ser capturados: transporte alternativo, gás, internet, TV a cabo clandestina, segurança privada, venda de imóveis, comércio local e até acesso a terrenos. O grupo transforma necessidades da população em fonte de renda.
O terceiro é a influência política. Milícias não sobrevivem apenas pela arma. Elas precisam de tolerância, blindagem, informação privilegiada e representação institucional. Podem pressionar votos, financiar campanhas, negociar apoio com agentes públicos e ocupar espaços no Estado. Essa relação entre crime, mercado e política é o que torna o fenômeno tão resistente.
A milícia opera como um “Estado paralelo”, mas essa expressão pode enganar. Muitas vezes ela não está fora do Estado. Ela se infiltra nele, negocia com ele ou nasce de suas brechas os faz com que o proprio estado fique a sua disposição, o que é muito melhor pois pode abocanhar muito bem a arrecadação do estado e colocar a serviço dos interesses dos proprios milicianos.
A analogia incômoda com a atuação policial nos estados
A polícia tem legitimidade legal para usar a força. Essa é uma diferença decisiva em relação às milícias. O problema começa quando essa força passa a agir sem controle público efetivo, com baixa transparência e sob pressão de agendas eleitorais ou econômicas.
A analogia não está na legalidade formal. Está na lógica de funcionamento. Milícias dizem impor ordem. Algumas operações policiais também se apresentam assim, sobretudo em territórios pobres, mesmo quando deixam um rastro de mortes, casas invadidas, escolas fechadas e moradores tratados como suspeitos por padrão.

Milícias controlam circulação. Polícias, quando usadas de forma abusiva, também podem transformar ruas, praças e comunidades em espaços de permissão condicionada. Quem mora ali precisa explicar por que está na própria esquina, por que carrega uma mochila, por que filma uma abordagem, por que participa de um protesto.
Milícias protegem interesses econômicos locais. Forças policiais podem ser mobilizadas para garantir reintegrações de posse, dispersar trabalhadores em greve, conter ambulantes, remover ocupações urbanas e proteger grandes eventos ou empreendimentos. Em muitos casos, a linguagem oficial fala em “manutenção da ordem”. Para quem sofre a ação, a experiência é outra: o Estado aparece como braço armado de uma decisão política ou patrimonial.
Essa comparação é desconfortável, mas necessária. Quando a polícia age como poder de ocupação, e não como serviço público, ela se aproxima da gramática das milícias: impor obediência, controlar corpos, proteger negócios e punir desobediência.
Quando a segurança pública vira ferramenta política
Governos estaduais controlam as polícias militares e civis. Isso torna a segurança pública um campo sensível, pois decisões operacionais podem ser influenciadas por cálculo político.
O discurso de “lei e ordem” costuma render dividendos eleitorais. Operações espetaculares, aumento de prisões, ações em comunidades e enfrentamento armado podem ser apresentados como prova de firmeza. O problema é que segurança pública não pode ser reduzida a performance. A sociedade paga um preço alto quando a política criminal busca aplauso imediato em vez de resultados duradouros.
Esse uso político aparece em várias camadas:
escolha de territórios onde a repressão será mais intensa;
tolerância com abusos quando eles agradam parte do eleitorado;
enfraquecimento de ouvidorias, corregedorias e câmeras corporais;
tratamento desigual de manifestações públicas;
retórica que associa direitos humanos à defesa do crime.
Também há interesses econômicos. A militarização do cotidiano urbano pode favorecer mercados privados de segurança, empresas ligadas a tecnologias de vigilância, grupos imobiliários interessados em “limpar” áreas valorizadas e redes locais que lucram com a administração informal da ordem.
Quando segurança vira moeda política e econômica, a polícia deixa de ser apenas uma instituição de Estado. Ela vira instrumento de governo, de classe, de território e de mercado.
Exemplos recentes mostram o tamanho do problema
Nos últimos anos, o Brasil viu uma sequência de episódios que reforçou críticas à atuação policial, principalmente em operações de alta letalidade.
A operação no Jacarezinho, no Rio de Janeiro, em 2021, marcou o debate público pela quantidade de mortos e pelas denúncias de execuções e violações. O caso ocorreu em meio a restrições determinadas pelo Supremo Tribunal Federal para operações policiais em comunidades durante a pandemia, no contexto da ADPF 635, conhecida como ADPF das Favelas. A repercussão mostrou o conflito entre a promessa de combate ao crime e a exigência de controle democrático da força.
Em 2022, a operação na Vila Cruzeiro, também no Rio, voltou a expor a letalidade policial em favelas. Entidades de direitos humanos, defensores públicos e moradores criticaram a forma da ação, a ausência de transparência e o padrão recorrente de mortes em massa sem mudanças estruturais na segurança.
Em São Paulo, a Operação Escudo, iniciada em 2023 na Baixada Santista após a morte de um policial militar, recebeu críticas de organizações da sociedade civil, da Defensoria Pública e de familiares de vítimas. Houve relatos de execuções, ameaças e invasões de domicílio. O governo paulista defendeu a legalidade da operação, mas o debate público se concentrou na pergunta que sempre retorna: uma resposta estatal pode se converter em vingança institucional?
A Bahia também tem sido alvo de críticas pela alta letalidade policial em ações recentes. Operações em bairros populares de Salvador e em cidades do interior geraram denúncias de abusos e questionamentos sobre a política de segurança adotada. O padrão é conhecido: confronto narrado pela polícia, mortos quase sempre apresentados como suspeitos, pouca investigação independente e comunidades inteiras submetidas ao medo.
Esses exemplos não dizem respeito a “casos isolados” no sentido comum da expressão. Eles revelam um modo de operar. A repetição importa. Quando denúncias parecidas surgem em estados diferentes, com governos diferentes e polícias diferentes, a questão é institucional.

O impacto nas manifestações públicas
O modo como a polícia atua em manifestações revela muito sobre a qualidade de uma democracia. Protestar não é favor concedido pelo Estado. É direito constitucional. Ainda assim, no Brasil, atos públicos muitas vezes são tratados como ameaça à ordem antes mesmo de qualquer violência ocorrer.
A repressão aos protestos de junho de 2013 se tornou um marco. O uso de bombas, balas de borracha e prisões arbitrárias contra manifestantes e jornalistas ajudou a ampliar a revolta nas ruas. A crítica naquele momento não era apenas contra o aumento da tarifa, mas contra uma forma de governar a cidade com escudo, cassetete e gás lacrimogêneo.
Desde então, o padrão se repetiu em diferentes contextos: protestos estudantis, atos de professores, greves de servidores, mobilizações por moradia, manifestações de movimentos sociais e ações em defesa de direitos. A intensidade da repressão varia conforme o tema, o local, o governo e o perfil dos manifestantes.
Essa seletividade é parte do problema. Atos de grupos mais próximos do poder econômico ou político muitas vezes recebem tolerância maior. Já manifestações de trabalhadores informais, moradores de periferia, movimentos negros, indígenas, sem-terra e sem-teto tendem a ser vigiadas e reprimidas com mais rapidez.
Quando a polícia age assim, ela não apenas dispersa uma multidão. Ela envia uma mensagem: alguns grupos podem ocupar o espaço público; outros serão empurrados para fora dele.
O efeito social é profundo. Pessoas deixam de protestar por medo. Jornalistas evitam cobrir atos de perto. Moradores de comunidades param de filmar abordagens por receio de retaliação. O direito existe no papel, mas se torna frágil na prática.
O medo como método de governo
A sociedade que aceita a violência policial como solução rápida acaba normalizando uma cidadania desigual. Para alguns, a polícia é chamada para resolver conflitos. Para outros, a polícia é o próprio conflito.
Esse medo não atinge todos da mesma forma. Ele se concentra em territórios periféricos, em pessoas negras, em jovens pobres, em trabalhadores informais e em grupos politicamente organizados que desafiam interesses estabelecidos. A segurança pública, nesse modelo, não distribui proteção. Distribui suspeição.
A consequência é uma democracia de baixa intensidade. Instituições funcionam, eleições acontecem, leis são aprovadas, mas parte da população vive sob uma rotina de exceção. Entradas em casas sem mandado, revistas humilhantes, operações perto de escolas, mortos sem investigação convincente e manifestações reprimidas passam a compor o cotidiano.
Esse cenário também corrói a própria polícia. Profissionais são colocados em uma lógica de guerra permanente, mal remunerados em muitos estados, submetidos a pressões políticas e expostos a riscos reais. Uma instituição treinada para tratar parcelas da população como inimigas também adoece por dentro. Autoritarismo não destrói apenas suas vítimas diretas. Ele deteriora as instituições que o praticam.
A função da polícia precisa voltar ao centro do debate
A discussão sobre milícias e polícias no Brasil não pode ficar presa a slogans. “Apoiar a polícia” não deveria significar aceitar abusos. “Criticar a polícia” não deveria ser confundido com defender o crime. Esse falso dilema impede reformas sérias.
Uma polícia democrática precisa de alguns pilares:
controle externo real, com Ministério Público, Defensoria, ouvidorias e sociedade civil atuando sem intimidação;
investigação rigorosa de mortes causadas por agentes do Estado;
câmeras corporais com regras transparentes e sem desligamento arbitrário;
formação voltada à mediação de conflitos, direitos fundamentais e redução de danos;
proteção a policiais que denunciam corrupção e vínculos com grupos criminosos;
dados públicos sobre abordagens, operações, mortes, prisões e uso da força;
separação clara entre segurança pública e interesses eleitorais.
Também é preciso enfrentar as milícias como fenômeno político e econômico, não apenas policial. Prender homens armados é necessário, mas insuficiente. É preciso cortar fluxos de dinheiro, investigar lavagem, responsabilizar agentes públicos envolvidos, proteger testemunhas e garantir serviços legais nos territórios dominados.
Sem isso, o Estado prende um operador e deixa intacta a máquina.
A pergunta que não pode ser evitada
O Brasil precisa escolher se quer uma polícia voltada à proteção de direitos ou uma força usada para administrar desigualdades. A primeira exige transparência, limites e responsabilidade. A segunda exige medo, silêncio e inimigos permanentes.
Milícias prosperam quando vendem ordem em troca de submissão. Polícias se aproximam dessa lógica quando atuam como instrumentos de interesses políticos e econômicos, sobretudo contra quem tem menos poder para reagir.
A saída não está em negar o crime, nem em romantizar territórios sob domínio armado. A saída começa por recusar a ideia de que segurança pública se faz com licença para violar direitos. Um Estado que combate ilegalidades praticando ilegalidades não fortalece a democracia. Ele ensina que a lei vale menos quando a vítima é pobre, negra, periférica ou politicamente inconveniente.
A função da polícia numa sociedade democrática deve ser proteger pessoas, não governos, mercados ou projetos de poder. Enquanto essa distinção não for levada a sério, o debate sobre segurança continuará preso ao mesmo ciclo: medo, operação, morte, denúncia, esquecimento e repetição.

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