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Patrimônio, economia e a arte de cuidar da casa comum

By: Fabrício Ramires Barbosa/

redação Brajeiradas

Data: 23/08/26


Quando a palavra "economia" aparece no meio de uma conversa sobre cultura, é comum que os olhos se arregalem — e nem sempre de entusiasmo. Muitos de nós, agentes culturais, aprendemos a desconfiar do termo. Ele parece vir acompanhado de ideias como mercado, lucro, competição, exploração. E, de fato, essas forças existem e pressionam o patrimônio cultural o tempo todo.

Mas, ao longo dos últimos meses, durante o curso de “Economia Cultural e Criativa, Indicadores e Patrimônio Cultural” da UFRB, minha visão sobre essa relação se transformou profundamente.

O que eu aprendi é que a economia, no seu sentido mais originário, significa "a arte de cuidar da casa comum". É sobre como organizamos os recursos — humanos, materiais, naturais, simbólicos e afetivos — para garantir que a vida coletiva possa prosperar. E, nessa chave, o patrimônio cultural deixa de ser apenas um objeto de contemplação ou um monumento a ser preservado, e passa a ser compreendido como um “estoque vivo de capital” que gera fluxos contínuos de experiências, saberes, trabalho e pertencimento.


O patrimônio não está nos objetos — está nas pessoas

Uma das ideias mais bonitas que carrego comigo é que o patrimônio cultural, antes de qualquer coisa, é feito de pessoas. São mestras e mestres que há décadas mantêm vivas suas tradições. São comunidades de centros históricos que se organizam para restaurar um espaço, preparar a festa da padroeira ou garantir que uma roda de capoeira continue acontecendo. São artesãs, cozinheiras, músicos, pescadores, fazedores de cultura.

Cuidar do patrimônio, portanto, é cuidar dessas pessoas. É assegurar que seus modos de vida, suas celebrações e seus ofícios tenham condições materiais de continuar existindo. Não se trata apenas de conservar um prédio ou registrar um saber no livro do Iphan. Trata-se de garantir trabalho, renda, transmissão de saberes e participação nas decisões.


Sustentabilidade econômica vai além do lucro

Uma das grandes viradas de chave que o curso me proporcionou foi compreender que a sustentabilidade econômica do patrimônio não é sinônimo de "dar lucro". Ela envolve a viabilidade de manter práticas e modos de vida ao longo do tempo, assegurando:

  • trabalho digno para quem produz cultura;

  • repartição justa de custos e benefícios;

  • acesso a recursos — matéria-prima, infraestrutura, financiamento;

  • transmissão intergeracional de saberes;

  • governança compartilhada entre comunidades, poder público e sociedade civil.

Essa visão se distancia radicalmente da lógica que reduz o patrimônio a uma mercadoria a ser vendida ou a um atrativo turístico a ser espetacularizado. O alerta é importante: quando o patrimônio é deslocado de seu contexto e de sua produção coletiva, ele se transforma em “fetiche” — objeto de desejo da sociedade de consumo, descolado de suas raízes e de seus sentidos originais.


Recursos são mais do que dinheiro

Outra lição fundamental que levo comigo é a ampliação do conceito de "recurso". No campo do patrimônio, recurso não é apenas verba pública ou patrocínio privado. São também:


  • saberes tradicionais, que carregam séculos de experimentação e criatividade;

  • territórios, que dão suporte material e simbólico às práticas culturais;

  • redes comunitárias, que sustentam a confiança e a cooperação;

  • valores simbólicos, que dão sentido e identidade aos bens culturais;

  • pessoas, que dedicam tempo, corpo e alma à manutenção da cultura.

Reconhecer esses recursos é o primeiro passo para construir estratégias de financiamento complementar que não substituem o apoio público, mas o fortalecem com arranjos híbridos, participativos e territorialmente enraizados.


A economia do patrimônio como campo de disputa e resistência


Também aprendi que o patrimônio é um campo de disputa simbólica, política e econômica. Diferentes grupos expressam, negociam e defendem seus modos de viver e suas referências culturais. E, infelizmente, há quem veja o patrimônio apenas como oportunidade de acumulação privada, desprezando o bem comum.

Por isso, a economia do patrimônio que defendo é aquela que reconhece o valor do trabalho coletivo, da solidariedade e da autogestão. Ela se inspira em práticas como cooperativas de rendeiras, associações de mestres e mestras, fundos patrimoniais geridos com transparência e editais públicos que respeitam a diversidade das expressões culturais.


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